Memórias de muitos anos de reportagens. Reflexões sobre o presente. Saudades das redacções. Histórias.
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Domingo, Julho 12, 2009

E ao escriba, ninguém passa cavaco

Os grandes patrões dos médias europeus anunciaram um cerrar de fileiras na guerra que travam já há uns anos contra os motores de busca e os agregadores de notícias, que utilizam os conteúdos das páginas digitais dos órgãos de comunicação social, casos do Google News ou, numa versão caseira, o eusou.com .
O que eles querem é, cito o que li no Público (que cita Mathias Döfner, presidente do grupo alemão Axel Springer), “uma fatia justa das receitas que são geradas pela exploração comercial dos nossos conteúdos”.
Portanto, o que eles querem é dinheiro, mas argumentam eufemísticamente com a necessidade de se respeitar a propriedade intelectual e, como diz Balsemão (citado pelo Público na sua qualidade de presidente do European Publishers Council), “apelamos aos governos para que apoiem o direito de autor na era da Internet”.
Mathias e Francisco querem receber por aquilo que se recusam a pagar aos jornalistas que trabalham para eles. Quem é o jornalista que recebe direitos de autor pelo seu trabalho? Quem é então o detentor da propriedade intelectual de uma obra, quem a faz ou quem paga o salário ao criativo? Qual destes magnatas da comunicação já alguma vez pagou a um jornalista por utilizar o seu trabalho nas sinergias dos grupos que controlam?
De resto, acho que está por fazer o cálculo dos benefícios usufruídos pelos órgãos de comunicação social ao serem citados pelos serviços agregadores de notícias e motores de busca. É que, invariavelmente, o utente acaba por lá ir parar, quando não é imediatamente dirigido para lá.

Sábado, Julho 11, 2009

1 + 1 = 11


Tenho feito um esforço, mas não consigo entender esta lógica aritmética que vai somando todos os casos positivos de gripe A. As notícias de hoje dizem que “sete novos casos de gripe A foram confirmados nas últimas 24 horas em Portugal, fazendo subir para 86 o número total de infecções deste vírus no país”, mas na realidade há apenas 7 pessoas internadas nos vários hospitais. As outras já estão curadas.
Segundo creio, todo este alarme se deve à rapidez de propagação do vírus H1N1. Mas não me parece que seja um vírus especialmente letal para justificar sucessivas conferências de imprensa da ministra e entrevistas ao director-geral da Saúde. Ou então há alguma coisa que me escapa, o que até é bem possível porque sou um leigo na matéria.

Mas achei curiosa uma reportagem que vi, no Telejornal, sobre a eventualidade dos políticos em campanha alterarem os hábitos beijoqueiros durante os banhos de multidão... o H1N1 será uma óptima desculpa para fintarem as velhas babadas e as criancinhas ranhosas.

Sexta-feira, Julho 10, 2009

Retratos e mensagens

O fotógrafo português Edgar Martins viu um trabalho seu ser retirado do site do New York Times, porque em pelo menos uma fotografia a imagem foi manipulada digitalmente. Edgar Martins terá utilizado Photoshop para realçar o efeito que pretendia quando fez a fotografia.
O fotógrafo diz que não é um mero intermediário e que, por isso, não se limita a retratar a realidade. Ele quis provocar um determinado efeito, quis comentar a coisa, dar uma opinião.
A discussão que se levantou é se o que ele fez é legitimo, do ponto de vista jornalístico, que era o que o New York Times pretendia ao encomendar o trabalho ao fotógrafo.
Mas quando a discussão chega a este ponto, não se pode restringir ao trabalho de recolha de imagens dos repórteres fotográficos ou de televisão. Quando um jornalista escreve um texto, as palavras que escolhe influenciam a visão que o leitor vai ter sobre o assunto. Dois jornalistas jamais farão a mesma reportagem sobre o mesmo assunto. A subjectividade é total, mesmo se os dogmas da profissão falam em isenção, equidistância e outras coisas impossíveis de alcançar.

foto de Edgar Martins

Quinta-feira, Julho 09, 2009

Financiadores

Encontrei um rascunho no computador, um copy paste de uma notícia de meados de Janeiro deste ano que dizia que o presidente do Tribunal de Contas, Guilherme d'Oliveira Martins, havia denunciado a existência de uma "onda de aproveitamento" da crise para gerar mais desemprego, situação que tem na origem "a não assumpção das responsabilidades sociais".A notícia citava longamente Oliveira Martins ao dizer que "vemos muitas situações em que percebemos que se está a aproveitar este momento para não assumir as responsabilidades sociais".
Curiosamente, desde então, e já lá vão mais de seis meses, não me lembro de ver nenhum partido político pegar nesta questão. E tenho a impressão que nunca irei ver, tanto mais que vamos entrar em sucessivas campanhas eleitorais e adivinhem quem vão ser os principais financiadores dos partidos políticos, pelo menos daqueles que têm tido os poderes legislativo e executivo na mão.

Terça-feira, Julho 07, 2009

Vermelho de Natal


Só damos por ele quando há eleições. Não que ele ou o partido não mantenham uma actividade política regular, mas porque só quando são obrigados a isso os órgãos de comunicação social dão cobertura às suas actividades. É por isso que ele só aparece em campanhas eleitorais, em reportagens de circunstância nos noticiários e… nos tempos de antena. É quando os pequenos partidos políticos têm algum ar para respirar. E é assim que se alimenta a ignorância sobre o perfil desses políticos e se mantêm estereótipos criados há dezenas de anos pela propaganda dos partidos maiores.
A propósito disto, hoje ao almoço ouvi uma história deliciosa que não posso deixar de partilhar.
Era Dezembro não sei de que ano e ele andava por Alfama, em campanha para as autárquicas. É um dos seus percursos de eleição, gosta de lá ir e parece que é sempre bem recebido pelos moradores. De ruela em ruela, cumprimentava pessoas e trocava palavras com quem tinha reclamações a fazer. Uma dessas pessoas levou-o a entrar em casa, certamente por causa de alguma obra de reparação que o senhorio ou a câmara deviam fazer e não faziam. O candidato ouvia e enquanto circulava pela casa reparou na árvore de Natal da velhota. “Olha, que bonita árvore de Natal!” disse, “até parece a minha!”, observação que surpreendeu a senhora: “Mas o senhor também faz árvores de Natal?”, perguntou ela ao líder do PCTP/MRPP – Partido Comunista dos Trabalhadores Portugueses/Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado.
Garcia Pereira explicou então à senhora que considerava o imaginário do Natal essencial para a educação das crianças e que, como tinha filhos, celebrava a festa todos os anos. Mesmo com esta explicação, julgo que a estranheza da senhora não se terá dissipado. Não é fácil de aceitar que um comunista empedernido se ajoelhe para colocar bolas coloridas e luzinhas cintilantes num pinheiro cortado. Será que eles são humanos?

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Break a leg (salvo seja...)


Não quero parecer demagógico, nem ciumento, nem invejoso… mas acho que o que se passou hoje com a sacralização de Cristiano Ronaldo ultrapassou todos os limites do bom senso e do pudor.
Cristiano Ronaldo é um belíssimo jogador de futebol. Ponto. Não é um cientista de renome, não ganhou nenhum Prémio Nobel, não se distinguiu em nada excepto a jogar à bola. Mesmo dando de barato que o futebol é um desporto do agrado da maioria das pessoas, nada justifica que todas as televisões do país tenham enveredado por dar cobertura a uma mera operação de marketing de um clube espanhol que, por manifesta falta de vergonha, decidiu pagar um balúrdio pela transferência de um jogador de futebol. No que toca à RTP, não vi nenhum serviço público na indigestão de directos realizados ao longo do dia, desde o aeródromo de Tires até ao hotel de luxo onde o rapaz foi tomar um duche antes de se apresentar à massa associativa madrilena. Quanto à SIC e à TVI, não surpreende a orientação tablóide do critério…
Resumindo, gostaria de saber quanto pagou o Real Madrid pela parceria das televisões portuguesas na operação de propaganda que montou.

Domingo, Julho 05, 2009

Pobre não é cidadão


Tem 50 anos e é mãe de duas adolescentes. Ambas estudam mas uma tem uma doença crónica detectada aos quatro meses de idade, razão pela qual a mãe recebia um complemento de abono de família, uma pequena ajuda do Estado para auxiliar nas imensas despesas médicas. A mãe ficou, agora, desempregada. E ao mesmo tempo que ficou desempregada viu o complemento de abono de família ser cortado. Porque o dito complemento só é pago quando existem descontos para a segurança social. Desempregada, a mãe deixou de fazer descontos… pois a miúda doente crónica deixou de ter direito à ajuda do Estado. Até custa a acreditar...
A frieza deste Estado é inaceitável. Mas se pensarmos que o Estado é aquilo que as pessoas querem que seja, então é a nossa frieza que é inaceitável. Uma frieza que se traduz, tantas vezes, em actos comezinhos e aparentemente distantes deste estado de coisas…
Tenho um amigo que faz parte de uma agremiação recreativa, um clube de bairro onde os sócios cruzam saberes, experiências e anedotas sobre a vida. Um destes dias houve eleições para a direcção da agremiação. O meu amigo não pôde votar porque deixou de pagar quotas desde que deixou de ter dinheiro quando faliu a pequena empresa dele. A falência não o empobreceu apenas, tirou-lhe direitos de cidadania também. Acredito que o magoou bastante ter sido impedido de votar.
Ele e ela têm direito a outro tipo de solidariedade, tanto do Estado como da sociedade.
E não falo de caridade.

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